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domingo, 22 de maio de 2011

A origem da mentira

“No Maranhão até o céu mente”.

Ecoa até hoje a frase do Padre Antônio Vieira, que conhecia o céu duas vezes – pelas orações e pelo saber meteorológico.

Segundo o sacerdote português, no litoral maranhense ocorria fenômeno único no mundo.

A inconstância do sol era de tamanha relevância que ludibriava os marinheiros e os induzia a encalhar barcos. O astrolábio ora indicava um grau, ora dois.


Vieira viveu no Maranhão província de Portugal nos anos de mil e seiscentos.

Percebeu ao chegar que os brancos se mostravam relutantes em converter os indígenas ao cristianismo, e esses continuavam pagãos.

Os brancos forasteiros queriam escravizar os nativos tapuias e furtavam tudo ao alcance dos olhos. Para o bom êxito do plano, não hesitavam em trapacear e mentir.

À insatisfação dos donos do poder com os jesuítas, a quem criticavam por proteger os índios, e à própria fúria pelas circunstâncias, responderia com “Quinta Dominga da Quaresma”, sermão ácido, bem ao estilo vieirense.

A verdade que vos digo é que no Maranhão não há verdade”.

Viviam sem solidariedade no “Reino da Mentira”, como chamou a esta terra.

O canibalismo dos crustáceos e dos peixes é o que imperava aqui, bradou.

Brasis

A 355 quilômetros de São Luís um hotel cobra quatrocentos e cinquenta reais pela diária da suíte.

Vá a Presidente Dutra e conheça terra de oportunidades e endinheirados.

Ali o valor dos imóveis se rivaliza com a capital, ouvi.

Se for ponto comercial, triplique o preço ou não leve. Aperreiam não; tem quem queira.

O antigo Curador cresceu enormidade. Corre para faturar a fama de maior pólo

desenvolvimentista do Maranhão Central.

E a tal suíte máster?

Com o que emperiquitaram a belezura sei não, que não paguei e não vi.

Mas que deu vontade danada, isso deu.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

De antanho

Fonfonar, verbo intransitivo.

Significava tocar a buzina.

Porfiar, disputar.

Não fosse o Houaiss e o Aurélio, deles não lembrariam.

E cavoucar?

Narizes e ouvidos da minha infância guardaram para sempre.

Ninguém mais judia, aporrinha, encasqueta, dá e recebe cacholeta, bogue, cascudo e bacuri.

Guerra de espadas? Guerra nas estrelas.

Nenhum menino espera mais o desafiado.

E nenhum mais se empapuça com quebra-queixo, mindubi, pão-cheio.

Ficou cheia de não-me-toques essa terra de sonhos desfeitos.

Fonfon

Lógica invencível guia a prefeitura.

Encolhe sistematicamente as áreas para estacionamento.

Em contrapartida, adia o quanto pode solução inteligente para o transporte público.

Sem perder a carona.

Alguém sabe o rumo do casario posto abaixo no centro?

Sim, aquele a abrir vaga a centenas de carros.

Multas, sanções e reconstrução caíram em bueiro sem fundo.

Essa gente conservada em ruínas carrega “esquecimento” histórico.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Cartão postal

O único acesso rodoviário a São Luís é verde.

De raiva, suponho, pelo capinzal medonho a tomar a BR-135.

Onça esperta fuja dele.

Corram dele os motoristas, os vendedores de milho, o gado livre, os fugitivos de Pedrinhas.

Dele se escondam a buraqueira e a falta de sinalização.

Porque a cidade não foge, dá vontade danada de não voltar não.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Sem máscaras

Nomeado por José Sarney prefeito de São Luís (1965 - 1969), Epitácio Cafeteira fez nome no carnaval maranhense ao proibir os Bailes de Máscaras já no primeiro ano do mandato biônico.

Levar a polícia a localizar “subversivos”, ou “inimigos” do novo regime – a ditadura – serviu como justificativa.

“Acho que ele não queria concorrência com a dele própria”, segundo versão hilária do historiador Carlos de Lima (morto este ano), em depoimento ao poeta Paulo Melo Souza (Jornal Pequeno, 4/5/2005).


Popularíssimos no século XX (década de cinquenta), os bailes eram o paraíso dos foliões dos sem-dinheiro, pula-cercas e homossexuais.

“Cheguei a presenciar vários desses bailes, mas nenhum deles foi mais importante que os comandados por Moisés Silva. O que teve mais repercussão ficava no Beco Escuro. As pessoas, principalmente as mulheres, usavam luvas e máscaras pretas, com um nariz pontudo e vermelho. Dessa forma, ninguém as identificava. Geralmente, eram prostitutas, meninas do comércio, empregadas domésticas ou mulheres casadas que pulavam a cerca”, lembrou Lima na entrevista.

O Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País), de Stanislaw Ponte Preta, cita o prefeito pela proibição e o apelido ganho à época: "Epitácio Cafeteira da Família dos Bules".


“Lá em casa tinha um bigorrilho
Bigorrilho fazia mingau
Bigorrilho foi quem me ensinou
A tirar o cavaco do pau
Trepa Antônio
O siri tá no pau
Eu também sei tirar o cavaco do pau
Dona Dadá, Dona Didi
Seu marido entrou aí
Ele tem que sair, ele tem que sair”

(Letra de “Bigorrilho”, marcha carnavalesca de Jorge Veiga)

Amigos do homem

Contam sobre o senador Epitácio Cafeteira.

Candidato ao Senado, fazia comício em município de São Luís quando alguém gritou:

“Cachorro!”.

“É o cinco, o número do Cafeteira”, respondeu de pronto.

Os eleitores entenderam o recado.

Político astuto, associou o “cinco” aos números do animal no Jogo do Bicho e de campanha.

Se jogada de marketing ou não, só o senador pode confirmar.