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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Algo mudou?


O jornalista Josias de Souza escreveu na Folha de S. Paulo em 24/9/2008.

91% da atividade de vereadores de SP é irrelevante

Entre 2005 e 2008, os 55 vereadores da Câmara Municipal de São Paulo
apresentaram 3.021 projetos. Desse total, foram aprovados 892.

Entre as propostas aprovadas, apenas 23% (206) tratavam de matérias com algum tipo de impacto direto na vida da população da cidade e no cotidiano
da prefeitura. Os outros 77% (686 projetos) ou não foram aprovados ou versavam sobre temas irrisórios, sem nenhuma importância prática.

Por exemplo: 1.202 projetos tratavam da nomeação de logradouros, de
homenagens, da fixação de datas comemorativas e outra banalidades.

Considerando-se a totalidade dos 3.021 projetos, chega-se a um quadro desalentador: foi de 8,6% o índice de produção legislativa dos vereadores com algum sentido prático para a coletividade.

Ou seja: a taxa média de improdutividade da Câmara Municipal do maior e
mais importante município do país – materializada no texto das
propostas inúteis – alcança 91,4%.

A análise dos projetos e a contabilização do que é relevante e
irrelevante foi deita pela Transparência Brasil. Pressionando aqui
você chega a um quadro com a lista das propostas.

O estudo revela que, diferentemente dos vereadores, a prefeitura submeteu
à apreciação da Câmara Municipal paulistana 137 projetos cujo teor
afetava diretamente a vida dos munícipes.

Desse total, aprovaram-se 85. Uma taxa de sucesso de 62%. Algo que conduz a
uma conclusão óbvia: assim como em Brasília quem dá as cartas no
Congresso é o Planalto, em São Paulo o dono do baralho é o Executivo
Municipal.

Enquanto os vereadores se afogam num mar de propostas fúteis, a
prefeitura legisla.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Você provaria?

“Lábios que provam o álcool não provarão os nossos”.

Publicidade norte-americana antiálcool de 1919.

A mensagem foi divulgada um ano antes da Lei Seca (1920 a 1933), um período fecundo para a fabricação e comercialização ilegal de bebidas alcoólicas, e que levou gângsters como Al Capone a reunir enorme fortuna.

The Noble Experiment, como também era conhecida a lei, só seria revogada no governo do presidente Franklin Roosevelt.

Aos olhos de agosto

Há algo de estranho no ar, e não são aeronaves perdidas num tirirical de dúvidas.

Não fosse essa celeumazinha de meio vintém entre governo e prefeitura (eu não libero porque você não me deixou fazer) pra sacudir esses dias mornos, diria que Macondo veio passar temporada sem volta nessa ilha de solidão imensa.

A cidade anda numa tristeza de dar dó, reparem. E numa indolência somente comparável a quem perdeu refinaria e energia.

Cada habitante se comporta como se chegada a hora de prestar contas com o juízo final.

Em cada semblante o abatimento de quem perdeu milhões nas bolsas de valores e na Nasdaq.

Estamos perdendo o ministro do Turismo ou os turistas é que perderam as coordenadas de tão decantada alegria?

Não há cidade feliz com amores e poetas tristes.

Pois onde estão os amores que não os encontro sob nenhum sol?

Talvez os poetas nos livrem de tamanha tristeza.

Há amores à venda nos shoppings.

À vista ou a crediário?

Não, há algo definitivamente estranho no ar.

A mídia esconde porque não encontra o que noticiar.

Os blogueiros calam porque perderam a quem anunciar.

Deputados da oposição elogiam as UPAs do governo.

Viu, e ainda querem que não veja o vazio que tomou conta do poder.

Ah, São Luís, porque te deixaram tão esquiva assim?

Talvez em setembro, talvez com a volta das marés.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Que puta língua!

Vem do latim vulgar a língua?

Então que a vulgarizem nas ruas. Dêem-lhe putas, puteiros, putadas, putanheiros. Que puta língua!

Goza essa língua? Na ponta da língua.

Puta goza? Da cara de quem lhe goza.

Onde goza? No Xirizal.

Língua suja essa! E afiada.

Porra, seus putos, que putaria!

Putada e puteiro sem xiri, nem vá.

Xiri é priquito, tabaco, prexeca. Xiri só maranhense fala, só maranhense tem fome. Come, pede mais, empanturra-se no Xirizal. Também se gosta de grelo.

Grelo?

De qual buraco saíste, seu fuleiro? Grelo é pinguelo, não há mulher da terra que saiu sem ele. Mulher de clitóris ou clítoris nem me encoste. Cabaço tu conheces?

Nunca vi, nunca ouvi falar. Nem de um, nem do outro.

Vê-se que és qualira. Pois saiba que aqui os olhos grelam quando o grelo é farto.

Que língua estranha a vossa!

Nada tem de estranha.

Qualiragem é coisa de qualiras; fuleiragem, de fuleiros.

Quando puser os pés nesta França Equinocial venha de japonesa, chamató ou sapato de enfiador.

Pra sua saúde, livre-se dos bogues, não curie a vida do vizinho, não breche a vizinha no banho, não meta o bedelho em conversa alheia, não tente apartar briga de marido e mulher, nem levante o texto da panela de quem lhe convidou.

Abaixe o facho pros mais velhos, aceite o mocho que lhe estendem, prove pirão de farinha-d´água, não faça desfeita se lhe oferecerem peixe-pedra, arroz-de-cuxá e Jesus.

Atenha-se a carecer, que é verbo traiçoeiro. Carece não? Então tá.

Em qual outra língua cagada dá sorte, senão nessa? Eta cagão sortudo!

Cuidado com o que diz. Cagão é homem frouxo. Encomende caixão e alma se por descuido chamar uma mulher de frouxa.

Mulher menstruada fica de bode. Estar bodado é estar sem disposição pra nada. Bode é tipo de papagaio; é artifício pra recuperar os que se perderam. Dar bode é ter confusão por perto.

Está de caganeira, vazando pelo pito? Melhor desistir. Mijada é bruta repreensão. Carne mijada, veja xiri.

Em qual língua estar embocetado é estar com o diabo no couro? A menos que seja chegado, negue o anel de couro, por mais peçam. Dar ou soltar o roscofe segue na mesma toada.

Conserta-se peixe? Conserta-se. Mais limpo, impossível.

Começou no sexo comendo as baratas de casa? Começou bem. Levou barata no dividido e no dominó? Terminou mal.

Quer bacuri, cacholeta? Olha a cabeça...

Quer o cigarro que alguém fuma? Peça o vinte. Um copo de cachaça? Peça um quarto. Fazer acrobacia? Faça pulitrica. Pegar peixes e crustáceos? Pois saiba manejar o puçá.

Essa língua não aprendo!...

Aprende sim, que até o Senhor de La Ravardière dela aprendeu e levou. Pro seu gasto, deixo o que vai lhe caber, seja noite, seja dia.

Saboeira, cancão, borroca, xirizuda, cheiro-verde, pungada, terecô, encriquilhar, crica, crivo, crivador, breado, guisadeira, jongome, trizidela, fiofó, desgranha, desgrota, sacrista, catraio, catraieiro, pitiu, pimba, pimbada, cambada, panada, paneiro, mangar, manina, carambela, cofo, taqueira, escrotidão, escrincha, sura, xexo, rodó, curica, bilha, rir-ri, panariço, abirolado, fodedor, boneca-de-anil; embira; cheira-peido, gronha, cruzeta; ganhador; pegado; moleira; cafufa; troíra; coíra; cascaria; casqueiro; gomoso; cerol, lancear, lanceada, papuda; ariri; melequeira, breba, briba, biriba, gurguminho, redengue, vira-folha, bajogar, birolha, fuçura, lascado, pandu.

Saboeira?

Saboeira é lésbica, mulher-macho. Saboeiras fazem sabão, só não me pergunte se de coco ou de andiroba. Pelo que aqui abunda, diria de coco babaçu.

O maranhense fala o melhor português do Brasil.

Fala não. Perdeu por ignorância e aceitação fácil dos modismos.

Maranhense fala cantando.

Isso faz mesmo. Nascemos espantados, esconjurando males, chamando outros. Da Baixada ao Sertão, do Tocantins ao Litoral.

Essa língua não aprendo.

Pois aprenda, se quiser entender porque essa gente tacanha pôs holandeses e franceses pra correrem do seu quintal, aos portugueses deu banana.

Cacuriá, ritinta, gruli, zabumba, aberturar, dindim, carambolar, escrincha, gargural, encantaria, cujuba, ziquizira, pico-pio, dentiqueiro, porronca, traioto, sembal, lapiseira, orelha-de-macaco, tibungar, pitó, afolozar, poaca, labigó, endiambado, coivara, tortulho, matraca, mataquar, mataquado, trolhar, lapiguaxada, junteiro, batido, fogoió, tuchal, abulhado, caraquento, borroca, chá-de-burro, atochar, groso, chila, chilado, chileiro, gondó, chororô, choro, chorona, barroada, rachada, rancento, dordói, agafe, gobira, chulado.

Aprendeu? Tento. Quando não, invento.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Setembro negro

Setembro de 1979.

São Luís vive dias intensos de greve.

Milhares de estudantes secundaristas e universitários saem às ruas para reivindicar o direito à meia-passagem nos transportes coletivos.

A Polícia Militar é acionada pelo governador João Castelo para reprimir o movimento com violência.

A cidade está sitiada, há trincheiras e barricadas, os líderes de greve são espancados e presos.

O governo anuncia aumento de passagens quatro dias antes da data crítica do movimento – 17 de setembro.

Em 17 de setembro, após concentração na Praça Deodoro, os estudantes saem em passeata rumo ao Palácio dos Leões.

Antes de chegar ao palácio são recebidos com jatos d´água, gás lacrimogêneo e cassetetes.

A greve começara a ser esboçada um ano antes.

Mais de trinta e cinco mil estudantes entregaram abaixo-assinado à prefeitura com pedido de redução de 50% no valor das passagens de ônibus.

A greve é suspensa em 22 de setembro.

Em 23 de setembro o governador anuncia pela tevê a concessão da meia-passagem, que começaria a vigorar em 10 de novembro.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O visionário

"Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa Errante será lido 50 anos depois; entristeci - decepção de quem escreve 50 anos antes".

Desabafo de Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, em 1877.

Sete anos antes transferira-se para os Estados Unidos. Só regressaria ao Maranhão em 1890.

Sousândrade é o autor da bandeira do Maranhão, claramente inspirada no pavilhão dos Estados Unidos da América.

O poeta nascido em Guimarães (1832) morreu na São Luís de 1902, miserável e louco.

Triste fim para o homem formado em Letras e Engenharia de Minas por Sorbonne (Paris).

Os poetas Augusto e Haroldo de Campos resgataram sua obra poética no início da década de 60.

A consideram uma das mais originais e instigantes do Romantismo no Brasil e precursora das vanguardas históricas.

domingo, 7 de agosto de 2011

A dominação

Elas já dominaram o mundo.

Foram veículo preferencial da gente pobre e dos operários.

Para emergentes, sinônimo de status.

Para meninos e meninas, o brinquedo mais querido, o que levava mais longe.

Em 2010, o Comitê dos Transportes e do Turismo do Parlamento Europeu reconheceu o papel da bicicleta como meio essencial de transporte para áreas urbanas.

E o Brasil, que anda na contramão do mundo, trocou suas bicicletas por motos.

Trocou saúde por barulheira e mortes no trânsito.

No interior do Maranhão, aposentaram bicicletas e jumentos.

O peão toca o gado com uma mão na motocicleta, outra no celular.

Diários da motocicleta.

Não, nenhuma vida assim tem diário que valha a pena contar.